LOVE SONG

MENSAGENS DE AMOR

13 de nov. de 2009

MISS IMPERFEITA


Martha Medeiros
'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas,
se você quer saber se isso é possível, me
ofereço como piloto de testes. Sou a Miss
Imperfeita, muito prazer.Uma imperfeita
que faz tudo o que precisa fazer, como boa
profissional, mãe e mulher que também
sou: trabalho todos os dias, ganho minha
grana, vou ao supermercado três vezes por
semana, decido o cardápio das refeições,
levo os filhos no colégio e busco, almoço
com eles, estudo com eles, telefono para
minha mãe todas as noites, procuro minhas
amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago
minhas contas, respondo a toneladas de e-
mails, faço revisões no dentista, mamografia,
caminho meia hora diariamente, compro
flores para casa, providencio os consertos
domésticos, participo de eventos e reuniões
ligados à minha profissão e ainda faço escova
toda semana - e as unhas!E, entre uma coisa
e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja,
aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir
um pingo de culpa por dizer NÃO.Culpa por
nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero,
o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa
Zero. Quando você nasceu, nenhum profeta
adentrou a sala da maternidade e lhe apontou
o dedo dizendo que a partir daquele momento
você seria modelo para os outros.Seu pai e sua
mãe, acredite, não tiveram essa expectativa:
tudo o que desejaram é que você não chorasse
muito durante as madrugadas e mamasse
direitinho.Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher. E, se não
aprender a delegar, a priorizar e a se divertir,
bye-bye vida interessante. Porque vida
interessante não é ter a agenda lotada, não é
ser sempre politicamente correta, não é topar
qualquer projeto por dinheiro, não é atender
a todos e criar para si a falsa impressão de
ser indispensável.É ter tempo. Tempo para
fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo
para dançar sozinha na sala. Tempo para
bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para
sumir dois dias com seu amor. Três dias.
Cinco dias! Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela. Tempo para receber
aquela sua amiga que é consultora de produtos
de beleza. Tempo para fazer um trabalho
voluntário. Tempo para procurar um abajur
novo para seu quarto. Tempo para conhecer
outras pessoas. Voltar a estudar. Para
engravidar. Tempo para escrever um livro
que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que
você pode ser perfeitamente organizada e
profissional sem deixar de existir. Porque
nossa existência não é contabilizada por um
relógio de ponto ou pela quantidade de
memorandos virtuais que atolam nossa caixa
postal. Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita
que, se não for super, se não for mega, se não
for uma executiva ISO 9000, não será bem
avaliada.Está tentando provar não-sei-o-quê
para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico
de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente
do que ser independente. Mulher que se sustenta
fica muito mais sexy e muito mais livre para ir
e vir. Desde que se lembre de separar alguns
bons momentos da semana para usufruir dessa
independência, senão é escravidão, a mesma
que nos mantinha trancafiadas em casa,
espiando a vida pela janela. Desacelerar tem
um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa
Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck
e o batom da M.A.C.. Mas, se você precisa
vender a alma ao diabo para ter tudo isso,
francamente, está precisando rever seus
valores.E descobrir que uma bolsa de palha,
uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto
lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser
prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova
perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida
interessante'.

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